sexta-feira, 8 de março de 2013

Com licença poética...Deus é mulher!

08 de março, Dia Internacional da Mulher...

* Texto inspirado na reunião das mulheres SUPRE - IPU (Igreja Presbiteriana Unida de Muritiba - Ba). Meus agradecimentos ao Reverendo e Cientista Social em formação, Claúdio Rebouças por tal inquietação: Deus é mulher!


 
Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
 
Adélia Prado


Nas considerações dos cientistas sociais, o dia é simbólico, um dia de comemoração/reflexão sobre nossos espaços na sociedade, sobretudo, sobre aqueles que com muita luta e resistência conquistamos e estamos por conquistar. Parafraseando Adélia, caminhamos aceitando "os subterfúgios que nos cabem, sem precisar mentir... Ora sim, ora não, cremos em parto sem dor" e cremos também na construção de um mundo melhor, apesar de todas as incertezas e contradições inerentes a este processo. Utopia, sonhos, esperança...É! Pra alguns bobagem! Pra algumas (mulheres), impulso e combustível para a estranha engrenagem da vida. 
Com efeito, apesar de toda violação de direito e desigualdade de gênero, é fato que fortalecemos nossos passos na busca por justiça. Mas, e quando nos reunimos para apontar nosso olhar à transcendência? Somos capazes de imaginar um Deus mulher? Um Deus que durante muito tempo foi nos apresentado como Pai e Senhor deve possuir uma face materna e feminina que por condições históricas adversas nos foi ocultada. Por conta disso, hoje, no Dia Internacional da Mulher do ano de 2013, comungo com o discurso de muitos teólogos que já defendem esta bandeira (ex. Leonardo Boff) e afirmo com licença poética, ou seja, com a aproximação que a arte/poesia me faz com o divino "porque vem de um reino e para ele aponta", que Deus é mulher! Deus é Pai e também é Mãe, face feminina que nos ajuda e nos sustenta neste campo de batalha cotidiana, nesta arena complexa da vida. Glória a Ele e a Ela nas alturas, paz na terra aos homens e mulheres de boa vontade!

N'Ele...N'Ela, que com graça, bondade e misericórdia manifesta seu amor e cuidado por nós todos os dias!
Mércia Cruz.  

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz 2013





Observação do Tempo

Amanhecemos
com os olhos do amanhã
e o dia é hoje.
Anoitecemos
com os sonhos de ontem
e a noite é hoje.
E de tanta
falta de sintonia,
de tanta busca
e farta agonia,
rabiscamos no calendário
a morte dos dias.

(Damário da Cruz)


Último dia do ano... expectativa quase que ritualística para a viração do ano, certa alusão ao Jardim do princípio quando o humano esperava Deus na viração do dia (já escrevi um post sobre isso aqui no blog). E se todo rito de passagem carrega um sentido mágico, por que então não aproveitar o momento oportuno para refletir, agradecer a Deus e desfrutar do presente no seu sentido mais presente de ser? Lembro-me de Agostinho quando atribui ao tempo (passado, presente, futuro) um caráter fugidio, no entanto, se estamos meio que "flutuando" nestes paradigmas que criamos para contar os nossos dias, não percamos a esperança  no criador do tempo e de todas as coisas que nele se inserem. Independente de como contamos e dividimos as estações e/ou de como vivenciamos tais transições, desejo um 2013 de muita fé, paz e amor a todos e todas.

Que possamos contar sempre uns com os outros...

 "Deus é a vontade de estar feliz" (Cidade Negra)

N'Ele...
Mércia Cruz
 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Por amar Adélia...

Por amor a Adélia Prado e seus poemas sobre dona doida, é que nasce esse fragmento literário... como braço extensivo de uma poética admirável e da qual jamais saberia co-responder, portanto, são apenas versos de reverência e homenagem.

Equilíbrio

Ando solta e sem amarras
Nenhum passo me é suficiente no caminho
Quando santa, embruteço demais a face e entrego um coração sem afetos.
Quando doida, desando a desatar os nós e abrir os cadeados que guardam sentimentos secretos.
Ocultos, mas em consenso revelados sem segredos e ditos sem palavras.
Mas, o que vai a alma de um poeta? Criador das sensibilidades desvairadas, amante do erro e da cólera?
É isto o amor?
Responde-me, voz que fala aos deuses e aos homens.
Quem sou em meio a este grande mistério, que lugar devo ocupar entre aqueles que amam, se sendo santa
não amo como espera o amor e sendo doida me perco e me embriago no cálice fugidio da intensidade a que chamam de paixão?

Mércia Cruz.


sábado, 6 de outubro de 2012

As cartas que eu não mando...









"Guardo pra te dar as cartas que eu não mando,
conto por contar e deixo em algum canto"

(Leoni)









Esse espaço deixa de acolher muitos escritos, que penso...penso e não materializo...todos eles, cartas que não mando, mas, sobretudo, cartas que não escrevo. E o motivo pelo qual não registro? Talvez a obrigação me afaste, me magoe...no entanto, o que é a literatura senão forma de estar no mundo, obrigação de pagar as contas e se justificar diante de Deus como cumpridor de uma missão, como já assinalou Fernando Sabino? Pensamento e escrita, eis a minha dose diária de vida, de fé e de comunhão com o sagrado. Minha carta de hoje, teria os seguintes fragmentos:

Cachoeira, 06/10/2012

Querido Deus,

sou grata a ti por todas as coisas...Coisas? mas, o que são tais coisas as quais me refiro o tempo todo? será que tenho refletido sobre o real sentido do meu agradecimento? Pensarei sobre isto, porém, de antemão não quero o imediatismo do outro lado que me remete a começar a enumerar uma lista enorme dos elementos pelos quais rendo-te graças. 
Minha mãe, família, amigos, cuidados...cada um deles amor, esperança, gratidão...no entanto Deus, sinto-me mais grata ainda pela dimensão Pai/Mãe que tu és, pois, por meio do teu infinito amor e por esta compreensão posso então valorizar todas as outras. 

Obrigada por tua maneira de ser e estar em mim...

Mércia Cruz.
Glória a Ele, que constantemente lê todas as cartas que deixamos de escrever e publicar.







quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Em que tempo nós estamos?

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Eclesiastes 3:1


Tudo fez formoso em seu tempo; também pôs o mundo no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até ao fim.
Eclesiastes 3:11


Já tenho entendido que não há coisa melhor para eles do que alegrar-se e fazer bem na sua vida;
Eclesiastes 3:12


E também que todo o homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus.
Eclesiastes 3:13


Já não há entrelinhas nos meus escritos, nada além para decifrar, a vida apenas...nas palavras de Drummond "A vida presente, os homens presentes". O cotidiano e suas manifestações tão aparentes e desnudas, esta arena de diputa e provocação diária nos perturba, nos incita ao jogo...mas que jogo? A vida é um jogo? Temos "competidores" tão demarcados? Ou será que em meio a esse tempo de guerra e estratégias, temos esquecido da dimensão da paz, do amor, da beleza e da poesia? O que é o humano? Sua condição material lhe determina a acessibilidade àquilo que é belo, humanizador e divino?  O Espírito, assim como os poemas, são pássaros! E estes pousam onde bem lhe apraz. Deus está entre nós, mesmo quando...
 
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
 
(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Evangelizar também é humanizar...

"Evangelizar também é humanizar..." (Rev. João Dias- IPU "Rememorando a Conferência do Nordeste)








Dentre tantas palavras que flutuavam no culto da manhã de domingo (19/08/2012) estas citadas acima, pousaram sobre minha cabeça e não quiseram mais sair. Podiam alçar vôo e fazer descansar a minha consciência, mas não...elas continuam aqui martelando e me "obrigando" a escrevê-las. Pois bem, livro-me desta agonia imediata, mas nunca poderei me livrar da responsabilidade de ter a consciência de que Cristo nos chamou para evangelizar/humanizar e não escravizar/espiritualizar ninguém. Se a salvação se dá no plano individual (cada um dará conta de si mesmo a Deus), ela ocorre antes e de forma suprema no plano coletivo, visto que cada um dará conta de tudo o que fez de bom e de ruim... consigo mesmo? Pode ser, mas antes...o que fizermos de bom e de ruim com o outro, o humano, sempre alvo do amor de Deus. De um Deus que é Pai e Mãe (nas considerações de Leonardo Boff), que está mais interessado em salvar do que condenar...Mas, o que é a salvação então? Alma apenas?  E se for só alma (no sentido transcendental) porque Jesus se fazer corpo e habitar entre nós? Porque um Cristo soberano se historicizar, adentrar este mundo e se submeter a brevidade da vida? Ao tempo, ao sono, a saudade, ao amor, ao choro, a angústia, ao medo, ao frio, e a morte? O teólogo Leonardo Boff nos dá uma pista:

"A revelação de Deus se dá dentro da vida humana e da história", mas, "A revelação de Deus não deve ser pensada de forma miraculosa (apenas), pois, "a Palavra de Deus não nos dipensa de pensar, tatear, buscar, esperar e de tomar decisões". (p.71)*

Nesse sentido, essa voz que ecoa e que me traz a consciência da necessidade de me envolver mais e mais com o Reino de Deus (que é justiça, paz e alegria no Espírito Santo), e me deixar ser forjado nesse processo, essa voz e esse chamado divino se manifesta e toma posse da minha consciência.

"A existência da consciência em nós nos eleva acima de nós e nos coloca diante daquele que fala em nós: Deus. A consciência que nos chama para o bem, nos evoca para a responsabilidade e apela constantemente para a abertura aos outros é a voz de Deus que nos atinge". (p.75)*

* BOFF, Leonardo. O Destino do homem e do mundo.

NEle, que nos traz à consciência a revelação da sua palavra.
Mércia Cruz.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Texto sobre nada

"Assim eu quereria minha última crônica, que fosse pura como esse sorriso" (Fernando Sabino).

Como diz o cronista Fernando Sabino em seu texto "A última crônica", não sou poeta nem sei escrever. Não faço verso, prosa, nem sei contar meu ordinário cotidiano; vida comum, beleza que não é luxo, e sim necessidade!
As três da tarde paro em frente a máquina de fazer escritos, mais um pouco de tempo e vem a hora da prece, mas protestante como sou não fui ensinada a reverenciar a mulher divina. Uma pena! pois, se não vejo em Maria ou Ana seres dignos de toda consideração, se não vejo Deus mãe encarnado em minha mãe, como então adorar Deus de forma fragmentada?
Deus-mãe vem com tua face materna e me acolhe em teu colo, porque no curso da jornada tive mais fome de amor materno.

Mércia Cruz.