sábado, 17 de dezembro de 2011

A viração do dia, do ano e/ou da vida!


A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. (Drummond)

Às vésperas do Natal, das festas de Ano Novo e das mudanças que a viração do ano trarão, me deparo diante da necessidade de postar (quem sabe) a última mensagem do ano de 2011. Mudança, transformação, o clamor pelo novo...novo ano, nova vida ou novo olhar, novas interpretações que se farão...que 2012 traga renovação! E mediante esse cenário de viração é que Adão e Eva se comunicavam com Deus no jardim. Na viração do dia conversavam e ficavam em comunhão com o Criador. Que 2012 seja um ano de mais comunhão, que possamos convidar Deus (Pai e Mãe) para bater um papo descontraído, que possamos convidar Deus pra dar boas risadas, pra cantar, pra chorar, pra lhe dedicar um poema. Que chamemos Deus a particpar do nosso cotidiano, a fazer parte das nossas tristezas e alegrias...a estar com o humano, e deixar de lado a dicotomia espiritual x humano que tanto nos separa DEle.

Quero expressar meu sincero agradecimento a todos e todas que me impulsionaram a escrever cada post, a cada um que leu pacientemente reflexões de uma alma inquieta e contraditória. Agradeço cada comentário registrado, e também aqueles que  ficaram no mundo da abstração. Obrigada amigos e amigas!

Diante das discussões e mensagens divulgadas, escolhi um poema de Damário da Cruz que traduz muito da nossa vivência nesse ano de 2011. Acredito que para todos(as), foi preciso arriscar, correr perigos na tentativa de alçar vôos necessários ao nosso crescimento, mas valeu a pena! Valeu Deus! "Sempre vale a pena se a alma não é pequena", mas antes disso...sempre vale a pena quando esta alma se encontra em ti. Que Cristo nasça e renasça em nossos corações e nos ilumine a cada dia. Desejo um 2012 de mais "riscos" a todos nós!

TODO RISCO
(Damário da Cruz)
A possibilidade de arriscar
é que nos faz homens.
Vôo perfeito
no espaço que criamos.
Ninguém decide
sobre os passos que evitamos.
Certeza de que não somos pássaros
e que voamos.
Tristeza de que não vamos,
por medo dos caminhos.


Boas Festas! NEle... o Deus que nasceu, morreu e ressuscitou para estar entre nós!
Mércia Cruz :)


domingo, 27 de novembro de 2011

Vou-me embora ou devo ficar?



"Vou-me embora pra Pasárgada...lá sou amigo do Rei" (Manuel Bandeira)

"O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
(...) não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente". (Drummond)

"Na casa grande Deus é gente aproximada" (João Alexandre)


Fugir, permanecer, correr ou ficar? As duas escolhas fazem parte da luta e da resistência humana em busca de dias melhores. Tardes mais ensolaradas, dias de chuva e frio nos quais todos tenham cobertores, agasalhos e um lar aconchegante para se abrigar. Em meio a tanta desigualdade, Pasárgada seria a solução? Ou devemos dar as mãos e permanecer onde estamos? Diz João Alexandre que na casa grande Deus é gente aproximada, que Cristo não é estático...É um Deus que ri, que dança, que chora. Assim, entendendo que nem isso, nem aquilo, nem fugir e nem permanecer...as duas coisas então. Vamos ao paraíso, ao refúgio, à habitação dos serafins, mas também vamos fincar nossos pés rachados de nordestinos guerreiros no nosso chão. Vamos sonhar, mas também considerar os limites da nossa realidade...Exaltar a utopia, sem deixar de jogar no espaço de manobra da dinâmica social.

Salve Cristo que nos ensina a prosseguir e recuar...Tendes a simplicidade da pomba e a astúcia da serpente.

Mércia Cruz :)

domingo, 13 de novembro de 2011

Deus é de todo mundo...




É necessário que ele cresça e eu diminua...Aquele que vem de cima é sobre todos, aquele que vem da terra é da terra e fala da terra. Aquele que vem do céu é sobre todos (...) Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, pois não lhe dá Deus o Espírito por medida. O Pai ama o Filho e todas as coisas entregou nas suas mãos. (João 3;30-35)

Diante das considerações de João acerca do nosso Cristo, só posso imaginar Deus com os braços escancarados para a humanidade...para toda a humanidade, e não só para uma pequena parcela dela que cumpre ritos e preceitos religiosos. Deus não deu o Espírito por medida, isso me faz acreditar ainda mais no caráter universal do seu Espírito, no seu poder e na sua presença que ultrapassa o nosso entendimento. Em vários episódios da história vemos o poder de Deus se manifestando de variadas formas, mas ainda assim temos a tendência de limitá-lo a uma ordem, a uma fé, a um dogma, quando a única coisa que o Espírito quer é se estender a todos, e tocar em todos, e levar Deus a todos...porque Deus é de todo mundo. Nas palavras do teólogo Leonardo Boff "Ninguém é pagão, todos são filhos e filhas de Deus...Deus chegou antes da religião". Obrigada Senhor por Cristo em nós, e por sua manifestação através de nós...Obrigada Senhor por ser nosso, por ser o Deus de toda a terra...

Paz e luz em Cristo... que foi amado pelo Pai e recebeu das suas mãos todas as coisas.
Mércia Cruz.

domingo, 6 de novembro de 2011

Esperança...



 Reflexão da Escola Bíblia de hoje...

"Não podemos cair na desesperança...Igreja é lugar de sonho e utopia" (Rev. Claúdio Márcio - IPU)

"Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor". (I Cor 13:13)

Creio que o amor é aquela dimensão que perpassa todas as outras (a fé e a esperança), estas nascem e são constantemente nutridas pelo amor. Mas, por que então comumente caimos na desesperança? Será que o amor falha ou desfalece em nós? Acredito que não se trata de um julgamento tão fatalista...o amor está em nós, o amor divino, inexplicável, que ultrapassa todo entendimento...Então por que nos abatemos? Porque o humano cansa, faz parte da nossa natureza essa pausa tão necessária à reflexão. Cristo cansou quando pediu água na fonte a mulher samaritana, Cristo refletiu diante da morte de um amigo...e chorou, derramou suas lágrimas por Lázaro, que fora ressuscitado logo depois.
Com efeito, a desesperança é só um estado, a nossa permanência deve ser na fé, na esperança e no amor...E nesse sentido, conforme as reflexões do Rev. Claúdio, Igreja é lugar de sonho e utopia...É o espaço onde a esperança e a fé devem permanecer vivas, mesmo quando o mundo inteiro não acreditar mais em qualquer possibilidade de mudança...A Igreja de Cristo deve refletir as crenças do seu mestre, que como humano lutava pelo fim da desigualdade, e como Deus, impulsiona os seus seguidores a fazer o mesmo. Fé em Deus, fé em dias melhores, fé em uma igreja que se engaja e se preocupa de fato com os problemas da sociedade... pois, como disse Luther King "Aquilo que afeta a um diretamente, afeta a todos indiretamente".  

Que possamos, enquanto cristãos, acreditar em uma Igreja que sonha, que acredita e não desiste do humano...porque Cristo não desiste de nós.
Que possamos permanecer na fé e na esperança, mas na fé viva, na fé que não é mera superstição...“Esperar que Deus faça tudo enquanto nós não fazemos nada não é ; é superstição.” (Martin Luther King).

NEle, que disse para sermos...Sal da Terra e Luz do Mundo!
Mércia Cruz :)

domingo, 30 de outubro de 2011

O CARÁTER MATERNO DE DEUS PAI

Antes de começar a tecer algumas ideias aqui, gostaria de pedir desculpas por tanto tempo sem postar nada...A correria do cotidiano e as exigências às vezes pesam um pouco, mas as ideias não morrem...ainda que demorem para serem registradas. O evangelho de Cristo floresce em cada conversa informal, em cada discussão...que nos fornece crescimento espiritual-humano, humano-espiritual, entendendo que essas dimensões jamais se separam. E por falar na manifestação do Espírito do Senhor no cotidiano, acabo de me lembrar que precisava registrar aqui no Blog algo que aprendi há algum tempo com um pastor que me cutucou a alma quando orou: "Deus, Tú és Pai e Mãe"...E a partir dessa curiosidade...surgiram algumas descobertas...



"Jerusalém, Jerusalém, que mata os profetas e apedreja os mensageiros que Deus lhe manda! Quantas vezes eu quis abraçar todo o seu povo, assim como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das suas asas" (Lucas 13;35).

Faz-se necessário ressaltar que as questões trazidas aqui são abordadas pelo teólogo Leonardo Boff...Conforme as considerações daquele que é considerado o criador da Teologia da Libertação, Deus é ao mesmo tempo Pai e Mãe, "Deus é paternamente MÃE e maternamente PAI".
Esta declaração me trouxe a resposta para uma inquietação de anos. Se Deus é plenitude, como atribuir a ele apenas o caráter patriarcal? E a mãe? E o protagonismo da mulher nessa história que elas de forma sobrenatural "bancaram" com coragem, fé e obediência? Boff então demonstra a imagem da mãe em Jesus/Deus...Pois, apenas um Deus que é paternamente mãe pode se apresentar como "a galinha que ajunta os seus pintinhos debaixo das suas asas".  
Assim, encontrei uma possibilidade de resposta para a minha querida e antiga inquietação...é apenas uma possibilidade de interpretação em meio a tantas outras, mas é uma dádiva saber que Deus nos dá essa capacidade incrível...de percorrer caminhos que antes eram restritos aos "donos da fé"...Jesus veio, o véu do templo se rasgou e a fonte do conhecimento está disponível para nós, basta tirarmos a tampa de pedra e beber.
Se você precisa de um Pai, de uma Mãe, de um amigo (a), de um irmão (a)...Jesus pode ser tudo isso, porque Jesus é Deus...o EU SOU...Pai e Mãe de toda criação.

Deus obrigada pelo teu carinho materno, existem coisas que só colo de mãe pra curar.
Mércia Cruz.


domingo, 16 de outubro de 2011

DICA DE FILME: CARTAS PARA DEUS...



Cartas para Deus...um história emocionante? sim, mas isso não é tudo. Esse filme não é uma indicação para mexer com seus sentimentos, é um desafio à fé-resistência. Um chamado a crer em Deus mesmo quando não encontrarmos todas as respostas. Quando a religião falha, quando a ciência não comprova, quando a nossa razão parece limitada...então só nos resta a fé. Essa que muitos julgam como alucinógena, na verdade é mais racional do que prevê a nossa vã filosofia. Essa é uma narrativa de fé, de um menino que tem muito a nos ensinar com sua experiência de medo, insegurança, mas sobretudo de fé.
Bom filme :)
Mércia Cruz.

sábado, 15 de outubro de 2011

PROFESSOR(A) E SONHO



Todo conhecimento começa com o sonho.
O sonho nada mais é que a aventura pelo mar desconhecido, em busca da terra sonhada. Mas sonhar é coisa que não se ensina, brota das profundezas do corpo, como a alegria brota das profundezas da terra. Como mestre só posso então lhe dizer uma coisa. Contem-me os seus sonhos para que sonhemos juntos.
(Rubem Alves)


Neste dia de reflexão, homenagem e sobretudo gratidão, lembro-me dos versos de Damário quando diz que a possibilidade de arriscar é que nos faz homens (homens e mulheres), humanos apenas. E quer figura mais humana que o professor(a), este(a) que apesar das adversidades sempre nos impulsionam ao sonho, à conquista e a beleza. Obrigada aos mestres que passaram pela minha vida, cada um de vocês foram como flores cujo perfume o tempo não foi capaz de levar. As diferentes fragâncias nunca me confundiram, mas antes serviram de ingredientes para compor parte da minha essência. Um agradecimento especial a Professora Ana Maria (in memorian), nunca me esquecerei dos almoços na sua casa...rsrsr, das conversas, das risadas, das broncas...da biblioteca que cheirava a álcool por causa do mimeógrafo...Enfim, nunca me esquecerei de todos os professores que me impulsionaram a sonhar e nunca desistir.

Mércia Cruz :)


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

DICA DE FILME: EM NOME DE DEUS...(?)

Em nome de Deus

 

A etimologia do termo religião nos remete a ideia de religare (do latim), aquilo que liga o homem a Deus, mas a verdade é que quando a pretensão humana e a hipocrisia imperam, a simbologia da ponte ou da corda que deveria unir...serve apenas para sufocar ou impedir a travessia.

Em nome de Deus revela as atrocidades que são cometidas em nome de uma falsa moral, em nome de uma fé inexistente. Mas, como se trata de uma narrativa cujo foco é a confissão católica será que nós (protestantes) podemos nos sentir tão confortáveis e distanciados dessa realidade? Será que algumas vertentes doutrinárias que servem de base para o protestantismo não vêm aprisionando a alma humana com seus ensinamentos contrários a palavra de Cristo? O que a teologia da prosperidade tem a dizer quando de forma cruel e dominadora diz a um ser humano que sua condição social, espiritual ou humana deve-se apenas a sua “falta de fé”? O que a teologia da prosperidade tem a dizer sobre os seus líderes que de forma extraordinária e instantânea experimentam a ascensão social? Serão eles os grandes e novos “heróis da fé”? O que a teologia da prosperidade vem construindo ao longo da história são pessoas doentes, alienadas da sua condição de filhos e filhas de Deus, da sua condição de homens e mulheres livres que não precisam se submeter a nenhum tipo de dominação e/ou opressão humana para saberem que são amados por Deus, para saberem que Deus realmente se importa com cada detalhe de suas vidas, mas jamais irá privá-los de qualquer sofrimento que seja, porque só assim nascerão homens e mulheres guerreiros que lutam por melhores condições de vida para si e para a comunidade em que vivem. Em nome de Deus os “donos da fé” tem feito coisas que até o diabo duvida...Por isso, caros e queridos irmãos e irmãs...em nome de Deus...vamos de mãos dadas, como disse Drummond, em busca de um evangelho mais genuíno, em busca de dias melhores...Vamos em busca do verdadeiro religare, Jesus...aquele que nos une a Deus. Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14.6).

NEle, com amor fraternal
Mércia Cruz.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

MOLEQUE

Em homenagem ao dia das crianças...12/10/2011 :)




Moleque

Sentado na porta da maloca, ele constrói cuidadosamente
seu mais novo instrumento de diversão.
Agachado à beira da calçada exprime toda a arte de um bom jogador de gudes, de bola...
 De atirador de pedras para construção do próprio destino.
Correndo feito um desvairado... de pé no chão, vai marcando o seu território.
E pros que acham tais acontecimentos fúteis ou coisa de quem não tem o que "fazer" é porque nunca experimentaram a sensação de ser protagonista da própria vida, de compor cenários tão ilustres como a maloca, a calçada e a rua.

Mércia Cruz.

HOJE!

HOJE
 

Hoje estou só e exigente.

Não quero a companhia de gente, bicho ou coisa do gênero.

Dei férias aos meus pensamentos e ordenei descanso a minha consciência.

Hoje não quero os sonhos, apenas o sono.

Não quero a vida, nem a morte. Quero apenas esse instante que se mostra.


Mércia Cruz

A BAHIA POR HÉRICA SOUZA...


Bahia,
Terra amada
Terra boa
Terra farta
Terra sofrida
Terra querida...

É a Bahia de Castro Alves
Bahia de Jorge amado
Terra de gente alegre
Terra do povo encantado.
Ah! Bahia dos meus amores
Bahia dos meus cantores
Bahia do Caetano
Bahia do soteropolitano
Bahia do acarajé... E o forró do arrasta pé!
Terra que é uma delícia... Para aqueles que aqui estão....
E para aquele que quiser e vier...
Ah! Bahia de Cachoeiras
Bahia...de Barreiras
Bahia de Maragogipe
De Maitinga e Maiquinique
Bahia de Camaçari
Salvador e Mairí
Bahia de Alagoinhas, Andorinha e também Aramari.
Bahia de Lamarão, Lajedinho e Lajedão,
Terra da diversidade, como são lindas suas cidades!
Aqui é possível ser feliz, independente de cor, idade ou religião.
Mas ainda é preciso pintar a cara e estender a mão.
Na rua ainda há crianças passando fome e a mendigar o pão.
Bahia do católico, Bahia de povo gótico.
Bahia do candomblé, terra de boa música e o destaque é o axé.


Terra daqui, terra dalí...
Não deixarei de citar: A praia de Imbassaí.
Águas tranqüilas de Jauá, as ondas de arembepe, as margens de Jacuípe, são belezas naturais e iguais eu nunca vi.
Lugar cheio de cor
Poesia
Arte
Alegria... É a terra do calor.
Bahia, minha Bahia, tu és o meu amor.


Hérica Souza 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Prato de Arroz




Uma mulher estava colocando flores no túmulo de um parente quando vê um chinês colocando um prato de arroz na lápide ao lado. Ela se vira para o chinês e pergunta:

- Desculpe-me, mas o senhor acha mesmo que o seu defunto virá comer o arroz?

E o chinês responde:
- Sim, geralmente na mesma hora em que o seu vem cheirar as flores!

(Autor desconhecido)

O respeito às diferenças é algo que deve ser continuamente praticado..."Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas". (Romanos 2:11).

domingo, 2 de outubro de 2011

IYÓ AIYÊ: TEOLOGIA, AÇÃO SOCIAL E NEGRITUDE EM CACHOEIRA-BAHIA.

*IYÓ AIYÊ: Teologia, ação social e negritude em Cachoeira-Bahia.
Mércia Cruz.

“Eu trago quilombos e vozes bravias dentro de mim”
Linhagem, Carlos Assunção, 1998.   


Caracterizada como uma cidade de fortes tradições católicas e afrodescendentes, comumente representada por inúmeras igrejas e terreiros, Cachoeira era vista pelo senso comum como uma “terra” improdutiva, estéril e indiferente à propagação dos ensinamentos protestantes. No entanto, esta “percepção” imbuída de preconceitos, por vezes compartilhada inclusive por membros de denominações evangélicas, se deve muito ao entrave histórico entre cristianismo e religiões de matriz africana. Essa discussão é antiga e não coloca como foco apenas a atuação da igreja católica nos tempos de escravidão no Brasil, pois a igreja de ordem protestante também teve forte participação nos processo de dominação e opressão do povo negro, seja por co-participação ou por simples omissão. Conforme as considerações de Venerano (2003):


(...) o protestantismo limitou-se apenas a levar o ensino religioso para os negros, oferecendo consolo e buscando sua conversão. Na verdade não oferecia qualquer mudança social ou política para a escravidão. As discussões a este respeito foram transferidas para o âmbito político, através do argumento de que a Igreja não se envolve em problemas sociais justificando a sua omissão diante da escravidão (ANDRADE, 1995 apud VENERANO, 2003, p. 14-15).




Nesse sentido, percebe-se, dentre os diversos fatores, como a dicotomia entre o espiritual e o social se perpetuou ao longo dos anos no imaginário da confissão protestante. Mas, com o advento da expansão do movimento evangélico na atualidade, urge a necessidade de uma reflexão baseada na relação dialética entre fé e sociedade. Tomando a dialética como termo utilizado por Marx para fundamentar a sua teoria de compreensão da realidade, esta inspira dinamismo, relatividade e contradição. Ainda na perspectiva de Marx, a dialética pressupõe uma relação ora complementar, ora contraditória entre pensamento e realidade posta. Segundo ele “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência”. Contradição e complementariedade que se constitui como parte da identidade do ser social, e por conta disso, devem ser analisadas como unidade, não no sentido de identidade, mas de relações que se unem em favor do sujeito, porém sem perder as suas especificidades. Neste aspecto corpo e alma, fé e sociedade, espiritual e humano se encontram, dialogam e se relacionam sem a supremacia de um sobre o outro.




O Verbo/Palavra estava com Deus, e era Deus. Se fez Carne/Corpo e veio morar entre nós. Assim, nos fala o evangelho de João, que diz também que o Verbo/Palavra (Deus) pode ser visto em sua glória, cheio de graça e verdade (Jo 1:1,14). Deus, ao se encarnar, tornou-se corpo e alma. Herdeiros da filosofia grega, protagonista do dualismo entre corpo e alma, passa-se a valorizar mais a alma em detrimento do corpo, esquecendo-se que o ser humano é ao mesmo tempo espiritual e corporal. Negar um desses aspectos é caricaturar a pessoa humana e mutilar a criação de Deus. (VENERANO, 2003, p.26)




Assim, a manifestação de uma espiritualidade fragmentada que separa o espiritual do humano, acaba por se traduzir em omissão e indiferença às desigualdades que se manifestam na sociedade em diversas formas.
Com efeito, são inúmeros os desafios e as reparações históricas sobre as quais a igreja protestante precisa discutir e atuar, mas diante do sistema dominante contemporâneo qual tem sido o papel da igreja junto à comunidade? Sabe-se que o capitalismo é interpretado não apenas como sistema econômico adotado pelo nosso país, mas também atua como ideologia que ultrapassa o âmbito produtivo e vai se manifestar no social sob a égide da desigualdade, da pobreza e da discriminação. De um lado está a classe abastada, sempre opressora, dona do poder e do outro, a classe que vive do trabalho, a maioria excluída, sofrida, marginalizada, trabalhadora, sustentáculo da produção econômica social. Assim, o capitalismo traduz-se como um sistema opressor que ao longo da história esmaga o humano em favor dos seus interesses classistas. Marx já dizia...


A história de toda sociedade existente até hoje tem sido a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra, o opressor e o oprimido permaneceram em constante oposição um ao outro, levada a efeito numa guerra ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que terminou, cada vez, ou pela reconstituição revolucionária de toda a sociedade ou pela destruição das classes em conflito. (MARX & ENGELS, 1999, p. 26)




Diante de tanta desigualdade, mas também de luta que marca a história do povo do Recôncavo, se faz pertinente a seguinte indagação: há espaço para uma teologia negra e engajada socialmente no protestantismo brasileiro, baiano e cachoeirano? Como a sociedade enxerga a atuação de uma igreja que atua apenas como um “refúgio” espiritual sem nenhum tipo de vínculo com as necessidades sociais da comunidade em que se encontra instalada?  Como a população cachoeirana enxerga a igreja?


Sem dúvida, os questionamentos são muitos, mas percebe-se cada vez mais a necessidade da Igreja, enquanto instituição social, se envolver com as causas da comunidade. Atuando numa perspectiva dialética, cumprindo o seu papel de oferecer um espaço de adoração, louvor e confissão de fé, mas também compartilhando dos sentimentos de busca por melhores condições de vida, lutando pelo combate a discriminação racial e desigualdade social. De acordo com uma pesquisa recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a vida social para negros e negras revela disparidades em relação aos brancos.




Uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira pelo IBGE mostra que 63,7% dos 15 mil entrevistados pelo instituto reconhecem que a raça e a cor influenciam a vida. As mulheres apresentam percentual maior do que os homens: 66,8% delas disseram que a cor ou raça influenciava, contra 60,2% deles. O estudo mostra ainda que, na opinião 71% dos entrevistados, o trabalho é a área mais influenciada pela cor ou pela raça. Em seguida, aparece a relação com a Justiça e a polícia (68,3%), o convívio social (65%), a escola (59,3%) e as repartições públicas (51,3%).


A "Pesquisa das Características Étnico-Raciais da População: um Estudo das Categorias de Classificação de Cor ou Raça" coletou informações em 2008, em uma amostra de cerca de 15 mil domicílios, no Amazonas, Paraíba, São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Distrito Federal.  


Nesse sentido é que as desigualdades que nos foram impostas ao longo da história devem ser cada vez mais enfraquecidas para que o diálogo entre fé e sociedade, religião e ciência, protestantismo e outras crenças seja estabelecido, a fim de garantir a busca por um modo de sociabilidade mais humano e emancipatório. Parafraseando Drummond, “no meio do caminho tinha uma pedra...”. Com efeito, uma pedra pode representar um obstáculo onde comumente tropeçamos. Todavia, a mesma pedra que “atrapalha”, constrói abrigos e estabelece relações, derrubando assim as muralhas da intolerância. “se eu conversar contigo, disso estou muito certo, consigo me aproximar...” (p.12 – Abrindo Caminhos: Ana Maria Machado).

Referências:
* IYÓ AIYÉ: Sal, terra (sal da terra). fonte: http://ocandomble.wordpress.com/vocabulario-ketu/
MACHADO, Ana Maria. Abrindo Caminho. Ed Ática.
http://www.bibliaonline.com.br (acesso em 19/07/2011 às 23:00 h).
MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. O Manifesto do Partido Comunista. 9. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
http://camacarinoticias.com.br/leitura.php?id=130452  (acesso em 22/07/2011 às 13:00h).


POEMINHA DE FIM DE TARDE...



O pôr do sol às margens do Paraguaçu ora é alaranjado forte, ora parece mais uma flor amarela desbotada, mas tem a cor da esperança... Dessa que se mostra quando nada mais faz sentido. 

Mércia Cruz :)

BELEZA NÃO É LUXO, É NECESSIDADE!

Beleza não é luxo, é necessidade! (Adélia Prado)

Quem experimenta a beleza está em comunhão com o sagrado. (Rubem Alves)



Quando me deparo com estas declarações penso cada vez mais que a arte e a poesia (presente em qualquer objeto ou ação do cotidiano) deva ser socializada e liberta dos moldes que as querem aprisionar. A apreciação do belo, no sentido mais amplo e subjetivo do termo, o belo que nada tem a ver com "boniteza", mas com a essência do ser...deve ser vivenciada por todos os seres humanos. Nas palavras de Adélia, a poesia tem a capacidade de nos humanizar...de nos tornar cada vez mais humanos. E por mais contraditório que isso possa parecer, quanto mais humanos nós ficarmos, mais perto de Deus estaremos. A poesia (presente no canto do pássaro, na folha que cai da árvore, na música, no poema, na dança do corpo, no sorriso, na lágrima, na melancolia, no medo...) pertence a todo mundo...poesia não é privilégio de letrados, intelectuais...a poesia da vida, do cotidiano, que se manifesta nas nossas formas de sociabilidade é que nos tornam mais sensíveis, mais leves, amantes e amáveis...A poesia presente no verbo que se encarnou, na palavra que ganhou vida para nos abraçar, no Deus Todo-Poderoso que pode ir a qualquer lugar, mas que prefere estar conosco e fixar seus olhos nos nossos...É dessa poesia que precisamos nos alimetar, beleza que não é luxo, e sim necessidade...É esse caminho que rearfimará em nós a nossa condição humana e nos afastará da bárbarie...nos afastará de todo mal.

Em Cristo que disse...aquele que de mim se alimenta, por mim também viverá.

Mércia Cruz :)

sábado, 1 de outubro de 2011

O ENCONTRO

Publicando os versos de Herica Sousa, parafraseando Drummond...Uma flor fura o asfalto...é tímida, desbotada e aparentemente frágil, mas é uma flor! Capaz de romper o tédio de uma vida que sem poesia só tem como caminho a bárbarie. 

Por muito tempo caminhei
Estava a vagar
Por muito procurei
Queria uma resposta encontrar

Meu coração estava aflito
Dentro de mim um conflito
Vozes clamavam
Um sofoco...um grito.

O tempo passou...
Amizades conquistei
Amores perdi
A resposta encontrei
E estava dentro de mim.

Chorei
Gritei
Cantei
Dancei
Bebi
Comi
Orei
Conquistei
Perdi
Amei...

E enfim...me encontrei.


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O QUE EU DARIA AO SENHOR.

Que darei eu ao SENHOR, por todos os benefícios que me tem feito?
Salmos 116:12





Como diz Adélia, às vezes Deus me tira a poesia, olho uma pedra e vejo somente uma pedra. É assim que me sinto ao escrever estas linhas. É assim que me sinto quando me deparo com essa passagem: o que eu daria ao Senhor? É bem recorrente do humano dizer que não oferece nada a Deus porque nada tem, mas será mesmo? Será que realmente somos tão vazios assim? Penso que devemos ter muita coisa interessante, senão o salmista não despertaria em nós tal reflexão. Acredito que quando Deus nos olha ele consegue identificar tudo aquilo que podíamos lhe oferecer em sinal de adoração, mas que por algum motivo o negamos. E é aí que me lembro das palavras do grande sábio e teólogo Rubem Alves, quando em suas declarações diz que como gostamos de oferecer coisas ruins a Deus. Como a cultura ocidental criou em nós a imagem de um Deus sádico que tem prazer no sofrimento dos seus filhos. E então oferecemos a Deus seja como recompensa por uma bênção alcançada, seja em ato de adoração ações que são extremamente sacrificantes e ruins para nós. E então Alves destaca sobre a importância de oferecermos a Deus coisas boas, prazerosas e lindas. Um poema, uma canção, convidar Deus para um café, uma leitura, convidar Deus para estar conosco na feira, no mercado, envolver Deus em nosso cotidiano. E oferecer a ele a nossa existência, viver por Ele, se alimentar dos seus ensinamentos que inspiram respeito, amor, diálogo, justiça social... Enfim... Oferecer a Deus aquilo que há de belo em nós e agradecer-te por todos os benefícios que nos tem feito.



Em Cristo, que mesmo sendo Deus não teve por usurpação ser igual a Deus, mas se humilhou e se entregou por nós...e se fez gente para habitar entre nós.

Mércia Cruz. :) 












quinta-feira, 22 de setembro de 2011

FILME: A LETRA QUE MATA


Esse filme é um exemplo contundente do que o fanatismo religioso pode fazer na vida de uma pessoa, de uma igreja e de uma comunidade. A Letra que Mata é um convite à reflexão das nossas práticas enquanto cristãos. Encarar as escrituras sem contextualizá-la e sem considerar a graça presente no sacrifício de Cristo na cruz é negar o amor que Deus derramou sobre essa humanidade quando se fez gente e habitou entre nós.

Que o Espírito que vivifica nos impulsione a somente crer na graça e no amor que nos foram entregues por Cristo, nosso Senhor e Salvador.

Mércia Cruz :)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

"Mas, o justo viverá da fé; e, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele". (Hb 10;38)

Esta passagem tão conhecida, só nos remete a uma expressão: resistência!...o caminho da fé é sempre o da resistência, da crença nas coisas que não se podem ver, mas se espera pacientemente. Jesus nos encoraja a ter fé, a descansar em meio a tempestade, a deixarmos a ansiedade de lado e confiar NEle como único capaz de transformar a adversidade e o pranto em alegria. Mas, a dúvida vem, o medo, a insegurança tbm são companheiros diários daqueles que esperam no Senhor. Em meio a isso tudo nos resta duas opções, tomar o largo caminho da autosuficiência ou permanecer no estreito, enfrentando as dificuldades e tendo a certeza que o melhor de Deus é o que prevalece em nossas vidas. Tudo o que foi idealizado e não se concretizou faz parte do plano de Deus para nossas vidas. Jesus nos conhece profundamente e sabe realmente do que precisamos. Confiar em Deus é se despojar da própria vontade e entender que o melhor de Deus ainda está por vir e já está presente. A esperança por dias melhores não deve anular a beleza que há na trajetória do deserto. Hoje é tempo de agradecer a Deus por todos os benefícios que Ele, com seu infinito amor e graça nos tem feito.

PAZ, graça, amor, comunhão...sempre!
Mércia Cruz

terça-feira, 13 de setembro de 2011

DICA DE LIVRO: MENTES PERIGOSAS...OS PSICOPATAS MORAM AO LADO (Ana Beatriz Barbosa)



Por que existem pessoas que cometem crimes hediondos? Assassinos em série? Muitos de nós acreditamos que a psicopatia encontra-se apenas em personagens criminosos e de fácil percepção. A verdade é que os psicopatas que chegam a cometer crimes e terem suas personalidades expostas não são maioria. Felizmente! contudo, isso não significa que estamos livres desses monstros sociais, pessoas frias, calculistas, que manipulam e não possuem a capacidade de se colocarem no lugar do outro. O psicopata não sente, não ama, é superficial e extremamente egoísta. São inteligentes pois são destituídos de emoções, são racionais e tem consciência do mal que causam as outras pessoas, mas nunca se arrependem. Os psicopatas leves e moderados são de difícil percepção, por isso, ninguém está livre desses predadores sociais que roubam, enganam, traem, minam as emoções e deixam rastro de destruição por onde passam.
A boa notícia é que eles não são a maioria da população...a boa notícia é que o bem sempre vence.
Este livro é um verdadeiro manual de sobrevivência...Boa leitura!

NEle, que nos livra de todo mal.
Mércia Cruz.

CARIDADE: ENTRE A ALIENAÇÃO E A EMANCIPAÇÃO.

Segue o texto que preparei para a discussão e estudo na EBD (Escola Bíblica Dominical) da IPU (Igreja Presbiteriana Unida)
Registro aqui o meu agradecimento à comunidade IPU, ao Reverendo e amigo Claúdio e sua esposa e querida amiga Jussiana pelo convite, pela comunhão, por cada abraço e sorriso que se manifestaram naquela manhã de domingo.

Agradeço a essa Igreja a inquietação que me causou na alma ao me cutucar com o seu lema: O que estou fazendo se sou cristão?

Por uma igreja que pensa e que emancipa seus membros...afinal de contas, toda família que verdadeiramente ama, acolhe e cuida...porém, não para aprisionar e sim para preparar pra vida!

Mércia Cruz (Estudante S. Social - UFRB)


DAR O PEIXE OU ENSINAR A PESCAR? A assistência social na perspectiva da emancipação humana.



Tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a erva, tomou os cinco pães e os dois peixes, e, erguendo os olhos ao céu, os abençoou, e, partindo os pães, deu-os aos discípulos, e os discípulos à multidão. E comeram todos, e saciaram-se; e levantaram dos pedaços, que sobejaram, doze alcofas cheias (Mateus 14; 19).



E, chegando eles a Cafarnaum, aproximaram-se de Pedro os que cobravam as dracmas, e disseram: O vosso mestre não paga as dracmas? Disse ele: Sim. E, entrando em casa, Jesus se lhe antecipou, dizendo: Que te parece, Simão? De quem cobram os reis da terra os tributos, ou o censo? Dos seus filhos, ou dos alheios? Disse-lhe Pedro: Dos alheios. Disse-lhe Jesus: Logo, estão livres os filhos. Mas, para que os não escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, tira o primeiro peixe que subir, e abrindo-lhe a boca, encontrarás um estáter; toma-o, e dá-o por mim e por ti (Mateus 17; 24).



No primeiro trecho que se refere à multiplação dos pães e peixes vemos Jesus realizando o milagre e alimentando o seu povo numa perspectiva de amor e cuidado, como um pai ou mãe que acolhe e atende as necessidades reais e imediatadas dos seus filhos, conforme o próprio Cristo menciona: E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? (Lucas 11).

No entanto, quando nos deparamos com as considerações do segundo trecho, surge a seguinte pergunta: porque Jesus enviou Pedro ao rio para pescar o tributo que deveria ser pago as autoridades da época? Se antes o mestre já havia realizado um milagre bem maior que foi alimentar a multidão, poque então não utilizar o seu poder e evitar assim que Pedro tivesse todo aquele trabalho? Seria coerente pensar que Jesus estava apenas preocupado em não banalizar o uso da sua autoridade como filho de Deus se recusando a realizar um ato simples? Ou o mestre estava querendo ensinar ao seu discípulo sobre a necessidade de ser um sujeito emancipado e ter autonomia tomando assim posse da libertação que advém do conhecimento da verdade? Nesse sentido, a escritura sagrada diz: conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.

De fato é possível empreender diversas interpretações sobre as passagens biblicas apresentadas, porém lançando apenas um olhar sobre o ato de dar o peixe e o pão e depois encorajar o discípulo a pescar, a verdade expressa no evangelho nos leva a crer que Jesus estava demonstrando como o Reino de Deus está baseado em justiça, esta por sua vez pressupõe equilíbrio, coerência, e mais do que isso, pressupõe equidade, igualdade nos direitos, emancipação e autonomia humana. Ao mesmo tempo em que Jesus é aquele que atende as nossas necessidades imediatas, ele tambem nos impulsiona a liberdade, e o que é a liberdade nesse sistema capitalista de luta de classes e opressão? A liberdade tem inúmeras definições, no entanto, quando se fala em liberdade nos dias atuais, nos reportamos à superação da desigualdade social, da injustiça, através da luta por melhores condições de vida para a classe trabalhadora, esta que serve de sustentáculo a produção econômica do país, mas não tem nenhuma participação efetiva nos frutos da riqueza que produzem.

Enquanto o capitalismo se expande e a classe dominante aumenta a sua lucratividade o que resta para a maioria da população? Fome, miséria, pobreza, desemprego, violência. Mas, a classe dominante também se “preocupa” com o crescimento acelerado dessas ocorrências na sociedade, afinal de contas, essa situação de fato atrapalha a sua perpetuação no poder e pode eclodir em possíveis manifestações das camadas populares mais atingidas pelo fogo devorador do grande dragão que é o sistema capitalista.

Essa “preocupação” do governo e demais organismos estatais está cada vez mais visível nos programas sociais que surgiram no Brasil a partir do ano de 1930, quando a gestão que governava o país junto com as Igrejas (Católica e protestante) se uniram para fazer da assistência social um mecanismo de dominação e camuflar os reais problemas presentes na estrutura do modo de organização política, econômica e social do país. Nesse sentido, Martinelli afirma: “sempre pronto para oferecer respostas urgentes às questões prementes, desde cedo os assistentes sociais foram imprimindo à profissão a marca do agir imediato, da ação espontânea, alienada e alienante”. (MARTINELLI, 2009, p. 127).

Nesta perspectiva, a assistência social torna-se sinônimo de assistencialismo e a concessão de benefícios acaba por escravizar o indivíduo que quando não busca sua autonomia vive sempre dependente dos programas sociais ou da ajuda de familiares para a garantia da sua sobrevivência em sociedade.

Na contemporaneidade, o Governo Lula teve grande destaque na mídia nacional por sua forte participação na elaboração de políticas de cunho social. No período em que inaugurou o programa Bolsa Família uma das frases recorrentes do ex-presidente era “vamos dar o peixe, mas também vamos ensinar a pescar”, de fato depois de anos de programa, a efetivação para a segunda parte da frase ainda se apresenta como um desafio, pois se muitas família fizeram do Bolsa Família o ponta pé inicial em busca da sua autonomia, muitas ainda permanecem com fortes dificuldades em encarar o programa como uma ação imediata e acabam por se acomodar, por menor que seja o valor concedido, essa postura ainda é perceptível em elevados índices.

É extremamente compreensível que a ascensão social e o rompimento com as contradições impostas pelo sistema capitalista não sejam fáceis, contudo, há sim para o indivíduo um espaço de atuação nesse grande jogo de interesses classistas. Weber, um dos grandes pensadores da sociologia defendeu a tese de que há espaço para a ação individual na dinâmica da vida social. Assim Iamamoto e Netto, teóricos do Serviço Social na atualidade concordam dizendo que:

Enquanto a organização capitalista da vida social não invade e ocupa todos os espaços da existência individual, ao indivíduo sempre resta um campo de manobra ou jogo, onde ele pode exercitar, mesmo que minimamente, a sua autonomia e o seu poder de decisão (NETTO, 2000, p.86).



Sempre existe um campo para a ação dos sujeitos, para a proposição de alternativas criadoras, inventivas, resultantes da apropriação das possibilidades e contradições presentes na própria dinâmica da vida social (IAMAMOTO, 2002, p.21).



Nessa perspectiva questionadora, a assistência social se reconfigura a partir do Movimento de Reconceituação, inaugurado no Brasil na década de 1960 e hoje procura atuar numa perspectiva emancipatória, que tem como objetivo sensibilizar o indivíduo para que este enquanto ser social se posicione como protagonista da sua própria história. E é o caminho da autonomia, da emancipação humana que devemos trilhar, não só acreditando, mas também lutando por dias melhores, por melhores condições de vida. Nesse sentido, evocamos o poeta do Recôncavo, Edson Gomes quando este em uma de suas canções declara:

Vamos amigo, lute!
Vamos amigo, lute!
Vamos amigo, lute! Uoou!
Vamos amigo, ajude!
Senão
a gente acaba perdendo o que já conquistou...
Vamos levante e lute!
Vamos levante e ajude!
Vamos levante e grite!
Vamos levante agora!

Que a vida não parou
A vida não pára aqui
A luta não acabou
E nem acabará
Só quando a liberdade raiar... yeah
Só quando a liberdade raiar...

http://www.vagalume.com.br/edson-gomes/lute.html#ixzz1UZLNn2vL



Lutar, vencer, romper e conquistar... é isto que Cristo nos impulsiona a fazer quando nos dá o peixe suprindo as nossas necessidades imediatas, sem as quais não teríamos condições de lutar e também quando nos manda pescar, nos ensinando com amor que devemos lutar e nos tornar homens e mulheres livres, mesmo em meio as inúmeras contradições impostas por esse sistema opressor e excludente.

Referência:



MARTINELLI, Maria Lúcia. Serviço Social: identidade e alienação. 13 ed. São Paulo: Cortez, 2009.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

SOMOS UM

Você diz que somos diferentes demais, que os nossos mundos jamais se encontrariam, mas nosso mundo amigo é um só. Nosso riso e nosso pranto, nossa fé e nossas incertezas, nossos amigos e nosso Deus, mesmo que você creia em uma manifestação diferente, mas a essência e o espírito são um só. O amor é um só, o batismo, a iniciação é tudo uma coisa só, e então somos um...em Deus e em nós mesmos.

Mércia Cruz

TIRA AS SANDÁLIAS DOS TEUS PÉS.




Tira as sandálias dos teus pés...vamos cravar esse chão, sentir a terra molhada entre os dedos. O suor da realidade que transpira pelos poros da nossa pele rachada do sol, resistente às estações. O caminho não é curto amor, mas é nobre e repleto de sentimentos, só vem cá quem é macho e fêmea pra enfrentar as adversidades, pedras e espinhos. Se quiser voltar, te deixarei partir, mas então saberei que não é digno do caminho.

Mércia Cruz

sábado, 27 de agosto de 2011

 

 

 

 

 

 

João Brasileiro

João Alexandre


Eu não tenho vergonha de ser brasileiro, não
Sou mistura de negro, europeu e tupi guarani
Todo mundo já sabe meu nome é João, sou cristão.
Deus me deu minha voz pra quem quiser ouvir.

Eu não tenho vergonha de ser brasileiro não
Sou profeta do samba do frevo e do maracatu
Todo mundo já sabe as cores do meu coração.
Ele é verde, amarelo, branco e azul.

Imagine: só ver um cavaquinho nas mãos do rei Davi
Imagine: só S. Pedro pescando na praia de Itapuã
Imagine: só um frevo rasgado dos filhos de Levi
Imagine: só o apóstolo Paulo no Maracanã, já pensou...

Imagine: só Maria fazendo uma feijoada
Imagine: só Isaias pregando na Rocinha
Imagine: só Miriã dançando uma timbalada
Imagine: só Esaú se vendendo ao jabá com farinha...

Eu não tenho vergonha de ser brasileiro, não
Sou mistura de negro, europeu e tupi guarani
Todo mundo já sabe meu nome é João, sou cristão.
Deus me deu minha voz pra quem quiser ouvir.

Eu não tenho vergonha de ser brasileiro, não
Quero mais florescer no lugar onde Deus me plantou
´tô aqui pra cantar minha história, meu povo, meu chão.
Esse Brasil brasileiro que Ele tanto amou.

Imagine só: os salmos em moda de viola
Imagine só: os proffetas virando repentistas
Imagine só: o Mestre e os doze batendo uma bola
Imagine só: a visão de Jacó pela voz de um sambista a cantar

Imagine só: os anjos tocando seus tamborins
Imagine só: cuicas nos braços dos serafins
Imagine só: pandeiros soando ao invés dos clarins
Imagine só: um céu brasileiro bem tupininquim.

Eu não tenho vergonha de ser brasileiro não...
É isso aí, eu não tenho vergonha de ser brasileiro...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

DEUS NOS AMA...

S enhor, sei que o teu 
O lhar está para além daquilo que revela a minha aparência.
B em e mal são conceitos muito fortes para um ser humano.
E stamos envolvidos demais com as duas coisas e, por conta disso,
R aramente saberemos nos definir. Como saber se somos então
A njos e/ou demônios?  
N ão podemos ser apenas humanos?
O h Deus!, nos ajude a 

D ecifrar este enigma.
E stamos confusos. Os opressores querem multilar a tua criação.
U ns acreditam serem tão bons que já não deveriam estar aqui, outros acreditam ser tão feios que
S implesmente acabam por negar qualquer possibilidade de mudança.